SELMA
A princípio, Selma - Uma Luta Pela Igualdade não se
destaca em meio a dezenas de biografias que chegaram aos cinemas recentemente.
O seu modelo é clássico, tanto na maneira de filmar (câmera colada no rosto do
personagem principal, grandes planos em gruas para cenas de multidões,
letreiros indicando locais e datas) quanto no roteiro (linear, cronológico,
explicativo). No entanto, por trás desta aparência de grande obra elegante e
convencional, o filme esconde uma série de qualidades incomuns que merecem ser
destacadas.
O primeiro mérito está na maneira de abordar Martin Luther King, Jr.
Várias biografias mostram seus retratados como pessoas de caráter inabalável,
virtuosas, bons pais, bons maridos e bons amantes. São pessoas morais, que agem
pelas emoções, pelos impulsos, porque o aspecto instintivo seria reflexo de um
caráter intrinsecamente bom. Mas Selma prefere enxergar Martin
Luther King como um homem político, um militante movido pela razão. Não se
insiste em sua relação com as mulheres, com os filhos, com os inimigos. Apesar
de testemunhar dezenas de injustiças, ele não chora, não quebra os móveis da
casa quando descobre que uma criancinha foi agredida. Esse é um homem
essencialmente cerebral, tático.
O período escolhido também merece atenção. Seria fácil abordar o líder
pelo prisma de sua morte prematura, fazendo dele um mártir, ou tomando como
ponto de partida o célebre discurso “I Have a Dream”, retratando-o como ícone.
Mas o filme da diretora Ava DuVernay prefere um momento
igualmente importante, mas menos midiático, e muito complexo do ponto de vista
político: a marcha de Selma a Montgomery, no Alabama, pelo direito do voto aos cidadãos
negros. O episódio foi marcado por conflitos políticos dentro da própria
militância negra (principalmente sobre o uso da violência em protestos) e entre
o presidente e os governadores.
No papel principal, David
Oyelowo contribui de maneira excepcional a este projeto. O ator
evita idealizar o personagem, fugindo das grandes cenas repletas de emoção, de
catarse, ou seja, evita a atuação-espetáculo. Comparado a outros atores nesta
temporada de premiações - Jake Gyllenhaal e seus olhos
esbugalhados, seus acessos de raiva, ou Eddie
Redmayne e sua tentativa em transformar Stephen Hawking no
homem mais carismático do mundo - Oyelowo é surpreendentemente contido,
complexo, conseguindo transmitir através de silêncios e da força do olhar o que
atores histriônicos transformariam em deificação.
Outros aspectos do filme merecem destaque. A fotografia, principalmente,
é espetacular. O tratamento da luz em cenas escuras, como nos quartos das casas
ou na prisão, impressiona pelos detalhes, isso sem falar em momentos à luz do
dia, como o primeiro enfrentamento na ponte - a cena mais bela e poderosa de
todo o filme. DuVernay sabe explorar o som nas cenas clímax, desacelerando o
ritmo ou retirando o diálogo e o som ambiente nos momentos necessários. Embora
não inove, a sua direção é precisa, elegante.
Com tantas qualidades, é uma pena que Selma - Uma Luta Pela
Igualdade abrace alguns artifícios fracos das biografias. A trilha
sonora repete a cartilha sentimental das produções do gênero, com a mesma
mistura de piano e violino tristíssimos indicando quando o espectador deve
chorar (algo semelhante aos risos artificiais em seriados cômicos de televisão,
indicando quando se deve rir). Os letreiros no final, apontando os rumos
futuros de cada personagem, e o uso de imagens de arquivo, para comprovar a
semelhança com a história real, transparecem a pouca confiança da diretora em
suas próprias escolhas e também na capacidade do espectador em compreender,
imaginar e sentir emoções por si próprio.
O tom sisudo também pode desencorajar o público médio a embarcar no
filme. Não há momentos de respiro nesta dinâmica baseada quase inteiramente em
diálogos acelerados, com grandes frases sobre a política, sobre os direitos
humanos, sobre o estado do mundo. Estes homens e mulheres seríssimos são vistos
apenas pelo prisma de militantes e revolucionários, nunca de pessoas quaisquer,
que também comem, dormem, se divertem. Neste sentido, o filme tende à
idealização, não de Martin Luther King, Jr., mas da política como única arma
possível de transformação social. Selma é um filme político,
não por tratar de personagens políticos em sua história, mas por defender uma
ideia essencialmente engajada.
É curioso que tantos diálogos políticos sejam proferidos por pessoas de
fé, dentro de igrejas, após as missas, em tom de sermões. Um aspecto histórico
bem retratado nesta trama é o uso da religião - cristã, no caso - como
ferramenta política. O pastor protestante Martin Luther King lutava pelo
direito das minorias, pela redução das desigualdades, pela retirada de
privilégios da elite. Esta é uma boa luta, ainda mantida por parte das
comunidades cristãs. Mas nos tempos conservadores atuais, com tantos políticos
fazendo da religião uma política, é interessante ver um homem que optou pelo
caminho contrário, fazendo da política uma religião.
O roteiro poderia constituir uma
simples denúncia do discurso adverso. Felizmente, BlacKkKlansman revela
uma quantidade considerável de nuances. A comédia encontra espaço para criticar
o racismo na polícia, mas também para destacar nomes progressistas entre os
policiais. Ela demonstra a potência e as limitações do discurso dos Panteras
Negras, e consegue explorar diferentes vertentes dentro da Ku Klux Klan. Para
completar, tem como personagem principal um homem de postura moderada, alheio
às causas militantes. Para Ron, também, o caso se torna um aprendizado. Uma
cena se destaca neste sentido: quando Flip Zimmerman, de origem judia, passa
tempo demais na investigação, ele diz “Antes,eu não pensava sobre ser judeu.
Agora, penso nisso o tempo todo”. A semente do espírito crítico está plantada.
Em termos de construção imagética,
Spike Lee cria seu trabalho mais inspirado em longos anos. Com a imagem em
formato scope, coloca os rostos negros no centro do enquadramento,
efetua lentas aproximações durante os discursos políticos, em sinal de
admiração e respeito, opta por eventuais planos angulados, para reforçar o
estranhamento e o humor. Lee confere grande atenção às cenas de dança, à noção
de grupo e comunidade, ou seja, à cultura de uma época. Para o cineasta, ser
negro é mais do que uma questão racial, é também uma maneira de estar no mundo.
Paralelamente, o diretor evita
vangloriar o herói e ridicularizar o adversário. Este é um filme que ataca
ideias racistas, mais do que as pessoas racistas em si, e neste ponto encontra
sua maior força política. Para completar o discurso, BlacKkKlansman ataca
o cinema segregacionista, cujo principal ícone é O Nascimento de uma Nação (1915), e
aponta os estereótipos reforçados pelo cinema de blaxploitation americano.
É impressionante como, dentro de uma comédia hilária e agradável, os produtores
Spike Lee e Jordan
Peele conseguem debater questões tão complexas, enquanto adotam
um posicionamento político inequívoco.
No elenco, John David Washington está
muito inspirado, transmitindo diferentes níveis de deboche ou raiva diante dos
inimigos, e Adam Driver continua funcionando como coringa do baralho atual de
Hollywood, adaptando-se a papéis quase paródicos com uma naturalidade
ímpar. Topher Grace, de corpo frágil e olhar doce, é
uma escolha curiosa para o líder fascista David Duke, mas funciona na tentativa
de desconstruir o caráter maligno do discurso adverso. De certo modo, todos os
personagens interpretam outras pessoas: o negro se passa por branco, o branco
interpreta um negro, o fascista encarna o tipo tolerante. É nesta ficção dentro
da ficção que o filme encontra sua força e torna-se uma importante comédia
política, do tipo que o circuito comercial precisa cada vez mais.
Infelizmente, os últimos minutos da
projeção tornam explícito aquilo que já estava suficientemente claro. Quando
uma ficção biográfica recorre a imagens de arquivo na conclusão, ela insiste na
veracidade de seu discurso, como se não acreditasse na potência de sua própria
narrativa, e supõe que o espectador não tenha compreendido a mensagem,
precisando de um último esforço didático. Trata-se do momento mais fraco do
projeto, mas não retira os méritos deste entretenimento de alta qualidade.
Filme visto no 71º Festival
Internacional de Cannes, em maio de 2018.
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